Quando comecei meus estudos de graduação, tive a oportunidade de participar como voluntária da Comissão Nacional de Memória Histórica em oficinas com famílias deslocadas pelo conflito armado na Colômbia. Durante esses workshops, as histórias e a força desses sobreviventes da violência me impactaram muito. Nessa experiência, reconheci várias questões paradoxais. As vítimas na Colômbia têm pouco acesso à verdade e à justiça, e muitas não sabem quem foram seus agressores ou por que esses fatos ocorreram em seu território, ao mesmo tempo em que há pouca confiança no Estado. Depois de mais de 60 anos de conflito armado, ainda há indiferença de vários setores da população em relação às vítimas. Depois desses encontros, percebi que, como colombianos, precisávamos entender muito mais sobre a guerra em que vivemos. Assim, concentrei minha carreira profissional na investigação de violência, conflitos e direitos humanos. Minha inspiração ou paixão pelo que faço é fortemente influenciada pelas comunidades e líderes que vivem em territórios fronteiriços com iniciativas exclusivas que tentam responder ou prevenir os efeitos da guerra. Em minhas recentes visitas às áreas de fronteira da Colômbia com a Venezuela, o Equador e o Panamá, testemunhei um aumento no tráfico de pessoas, bem como o recrutamento forçado por novos grupos armados, o deslocamento forçado de crianças e eventos de violência, especialmente contra migrantes e grupos vulneráveis que permanecem invisíveis apesar do acordo de paz assinado em 2016 com os guerrilheiros das Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou FARC). Portanto, há muitos motivos para continuar trabalhando no meio acadêmico para proteger os direitos humanos.
Embora eu tenha concentrado grande parte de minha pesquisa na análise da violência usando metodologias como cartografia social e mapeamento histórico para entender o impacto humanitário da guerra na Colômbia e a disputa de diferentes atores armados em torno de economias ilícitas, também tive a oportunidade de trabalhar em outras questões. Por exemplo, investiguei os riscos da reincorporação de ex-combatentes após as negociações de paz. Nessa investigação, foi interessante descobrir que as FARC, como partido político, conseguiram obter votos apesar da violência contínua e das disputas entre diferentes grupos armados no país. Além disso, analisei a situação dos refugiados de outras nacionalidades na Colômbia, bem como das vítimas colombianas no exterior. Muitas necessidades de proteção são compartilhadas por aqueles que fogem do conflito na Colômbia e por aqueles que chegam ao nosso país fugindo de conflitos e violência em outras latitudes. Além disso, tenho trabalhado recentemente no impacto dos grupos armados transfronteiriços sobre a segurança das pessoas na mobilidade humana. Essa é uma questão delicada porque a Colômbia é o principal receptor de venezuelanos e também é um local de trânsito e permanência para pessoas de outras nacionalidades do continente e até mesmo da África e da Ásia. Entretanto, pouca atenção é dada aos riscos e às violações que essas pessoas sofrem em meio ao conflito persistente.
In updating and implementing public security and human rights policies, I believe we have yet to adopt an effective territorial and intersectional approach. At the territorial level, we need to take into account that violence of greater magnitude is not a random or generalized or cultural phenomenon, as many think. Rather, it is strongly concentrated in some places or territories caused by specific factors and actors. Thus, it is possible to find that in countries such as Colombia, year after year the most critical territories of violence generally remain the same, and strategies are not always consistent with these patterns. In terms of an intersectional approach within the national and local strategies, we are in the early stages of responding to the differentiated impact of war on populations of different ages, especially among boys and girls. But we should also consider other social factors such as ethnicity, country people, LGBTIQ communities, and migrant status, among other variables. We are still pending truth and justice processes, including strengthening the care and protection for the victims. But we also need to recognize and promote the initiatives and projects of those affected by the conflict and build capacities that are essential to preventing the activation or resurgence of factors and actors that promote violence.
In 2016 I participated in a course on regional and international early warning mechanisms and public policy for mass atrocity prevention. Then, as an instructor for AIPG I participated in the 2017 Global Lemkin Seminar for Genocide Prevention and in 2020 in the online course in Migration and Atrocity Prevention. As an external consultant, I was fortunate to develop several technical assistance projects, during which I received feedback and valuable support from AIPG’s staff, as well as countless other individuals, academics, governments, and organizations. In 2019 I developed for AIPG the Cartilla de recomendaciones para la protección de migrantes y refugiados desde un enfoque de prevención de atrocidades: líneas de acción para Colombia frente al éxodo venezolano (Recommendations for the protection of migrants and refugees from an atrocity prevention approach: lines of action for Colombia in the face of the Venezuelan exodus.) Under one of the recommendations of the Cartilla, in 2020 I developed a guide with self-care mechanisms for people on the move in Colombia, and also printed by the Ministry of Interior in Colombia. This is a tool to empower migrants and refugees in the knowledge of various security risks and specific self-care tips for families, unaccompanied minors, women and LGBTIQ+ population both within and outside the armed conflict. I also prepared a proposal with contributions for the creation of an institutional observatory of human rights and integration for migrations. And in 2021 I designed a Risk Map for refugees and migrants in Colombia, which was adopted by the Departamento Nacional de Planeación (National Planning Department) as the first territorial diagnosis of the situation of threat and vulnerability to which people in mobility are exposed in the country. From this set of experiences, my human and professional approach to violence and human rights has changed. I took on the challenge of thinking about and promoting concrete prevention actions, even amid such complex contexts as the persistence of the armed conflict and the unprecedented migratory exodus in Latin America. In this direction, I would like to highlight the initiative we have had with some colleagues with the Xenophobia Barometer as a platform for analyzing messages in social networks to identify and transform the narratives that end up generating discrimination, hatred, and violence towards the migrant population. From what I learned with AIPG, it is necessary to counteract the first signs of social fragmentation that lead to dehumanization and transform into mass atrocities. So with the Barometer, for example, we are working on early warnings to see where and why there is incitement to violence, informing key authorities for interventions aimed at mitigating factors of tension and violence. We are currently targeting work around racial hatred and gender-based violence. In these years of relationship with AIPG, I have also been motivated by the creativity and work of the community and students who have been involved in training and research programs. Despite the difficulty and overwhelming nature of these issues, one of the most powerful tools in the prevention of atrocities that AIPG reinforces is networking to share and promote initiatives to protect human rights.
Ao iniciar minha graduação, tive a oportunidade de participar como voluntária na Comissão Nacional de Memória Histórica em palestras com famílias desalojadas pelo conflito armado na Colômbia. Nessas atividades, tive um grande impacto ao conhecer as histórias e a força dos sobreviventes da violência. Nessa experiência, reconheci vários aspectos paradisíacos, como o fato de que, depois de mais de 60 anos de conflito armado, de um lado há indiferença de vários setores da população em relação a quem viveu a guerra, e de outro lado, as vítimas na Colômbia têm pouco acesso à verdade e à justiça; de fato, muitos não sabem quem foram suas vítimas, por que esses fatos ocorreram em seu território, ao mesmo tempo em que há pouca confiança em relação ao Estado.
A partir desses encontros, percebi que, como colombianos, nos faltava entender muito mais a guerra em que vivemos e terminei enfocando minha carreira profissional na investigação de fenômenos de violência, conflito e direitos humanos. Minha inspiração ou paixão pelo que faço está fortemente influenciada por encontros com comunidades e pessoas líderes que vivem em territórios fronteiriços com iniciativas maravilhosas que pretendem responder ou prevenir os efeitos da guerra. De fato, em visitas recentes que realizou a zonas de fronteiras da Colômbia com a Venezuela, Equador e Panamá, a despeito do acordo de paz firmado em 2016 com a guerrilha das FARC, pôde evidenciar o aumento de fenômenos de ameaça, reclutamiento forzado por parte de nuevos grupos armados, niñez desplazada a la fuerza y eventos de violencia particularmente contra migrantes y grupos vulnerables que siguen siendo invisibilizados. Dessa forma, não são poucos os motivos para seguir trabalhando com a docência e a pesquisa em torno da proteção dos direitos humanos.
Embora boa parte de minha pesquisa tenha se concentrado em analisar a violência a partir de metodologias muito valiosas como a cartografia social e mapeamentos históricos para entender o impacto humanitário da guerra no país e a disputa de diferentes atores armados em torno de diversas economias ilícitas, também tive a oportunidade de trabalhar em outros temas. Por exemplo, ele investigou os riscos para a reincorporação de excombatientes após processos de paz. Nesse tema, foi interessante descobrir que as FARC, como partido político, conseguiram obter votos a favor, apesar da violência e da disputa entre diferentes grupos armados no país. Adicionalmente, por meio de diferentes consultorias, analisei a situação de refugiados de outras nacionalidades na Colômbia, bem como de vítimas colombianas no exterior e, nesse sentido, não são poucas as necessidades de proteção que compartilham as pessoas que vivem no conflito da Colômbia e as que chegam ao nosso país devido a conflitos e violências em outras latitudes.
Além disso, recentemente, tenho trabalhado sobre o impacto de grupos armados transfronterizos na segurança de pessoas em movimento humano. Esse é um tema muito delicado porque a Colômbia, além de ser o principal receptor de pessoas venezuelanas, também é o local de trânsito e permanência de pessoas de outras nacionalidades do continente e até mesmo da África e da Ásia. No entanto, há muito pouca atenção aos riscos e vulnerabilidades que essas pessoas estão vivendo em meio à persistência do conflito.
Na atualização e implementação das políticas públicas de segurança e de direitos humanos, consideramos que é preciso adotar de maneira efetiva um enfoque territorial e intersetorial. Em nível territorial, é preciso considerar que a violência de maior magnitude não é um fenômeno aleatório, generalizado ou cultural, como muitos pensam, mas que está furiosamente concentrada em alguns lugares ou territórios e, além disso, é provocada por fatores e atores específicos. Dessa forma, é possível encontrar que em países como a Colômbia, ano após ano, em geral, os territórios mais críticos de violência continuam sendo os mesmos, e as estratégias nem sempre são coerentes com esses padrões. Em termos de um enfoque interseccional dentro das estratégias nacionais e locais, há um trabalho muito incipiente para responder ao impacto diferenciado que a guerra tem sobre populações com idades diferentes, especialmente entre niños e niñas, além de considerar outros fatores sociais como sua pertença a comunidades étnicas, camponesas, LGBTIQ, sua condição de migrante, entre outras variáveis.
De fato, uma ajuda às vítimas de atrocidades massivas na Colômbia tem sido que o Estado implemente estratégias que se concentrem na não repetição nos territórios onde se registra uma continuidade da violência, mediante ações institucionais que respeitem os direitos humanos e o tipo de comunidades que habitam esses espaços. Ainda temos processos pendentes de verdade e justiça, fortalecendo as rotas de atenção e proteção àqueles que sofrem os danos das vítimas, mas também reconhecendo e impulsionando as iniciativas e os projetos daqueles que se veem afetados pelo conflito a partir de lógicas não assistencialistas, mas sim de participação e geração de capacidades que são fundamentais para evitar que se ativem ou ressurjam fatores e atores que propiciem a violência.
Em 2016, participou de um curso sobre mecanismos regionais e internacionais de alerta temporário e políticas públicas para a prevenção de atrocidades massivas. Posteriormente, como instrutora do AIPG, participou em 2017 do Seminário Global Lemkin para Prevenção de Genocídio e, em 2020, acompanhou o curso on-line sobre Migrações e Prevenção de Atrocidades. Como consultora externa, tive a sorte de desenvolver vários projetos de assistência técnica e, nesse processo, contei com a retroalimentação e o valioso apoio da equipe do AIPG, bem como de inúmeras pessoas, acadêmicos, autoridades e organizações. Em 2019, elaborei para o AIGP uma Cartilha de recomendações para a proteção de migrantes e refugiados a partir de um enfoque de prevenção de atrocidades: linhas de ação para a Colômbia frente ao êxodo venezuelano. Em concordância com uma das recomendações da Cartilha, em 2020 construímos um Guia com Mecanismos de Autocuidado para pessoas em movimento na Colômbia e que também imprimió el Ministerio del Interior en Colombia, como herramienta para empoderar a personas migrantes y refugiadas en el conocimiento de diversos riesgos de seguridad y consejos de autocuidado específicos dentro y fuera del conflicto armado para familias, menores no acompañados, mujeres y población LGBTIQ+. Também elaborei um documento com aportes para a formação de um observatório institucional de direitos humanos e integração para as migrações. E, no ano de 2021, elaborou uma proposta de Mapa de risco para pessoas refugiadas e migrantes na Colômbia. Esse trabalho foi adotado pelo Departamento Nacional de Planejamento como o primeiro piloto de diagnóstico territorial, visual e rápido, sobre a situação de perigo e vulnerabilidade a que estão expostas as pessoas em movimento no país.
A partir desse conjunto de experiências, minha abordagem humana e profissional aos temas de violência e direitos humanos se transformou substancialmente. Justamente por isso, assumi como tarefa pensar e promover ações concretas de prevenção, mesmo em meio a contextos tão difíceis como a persistência do conflito armado e o êxodo migratório sem precedentes que se apresenta na América Latina. Nesse sentido, gostaria de destacar a iniciativa que tivemos com alguns colegas com o Barômetro de Xenofobia como plataforma de análise de mensagens em redes sociais, por meio da qual buscamos identificar e transformar as narrativas que acabam gerando discriminação, ódio e violência contra a população migrante. Justamente pelo que aprendemos com o AIPG, é necessário contrariar os primeiros indícios de fragmentação social que levam a fenômenos de desumanização e que se transformam em atrocidades massivas. Assim, com o Barómetro, por exemplo, estamos trabalhando em alertas temporários para ver onde e por que há incitação à violência, informando as autoridades competentes para intervenções que visam mitigar os fatores de tensão e violência. Na atualidade, estamos pedindo para trabalhar em torno dos ódios raciais e da violência de gênero.
Nestes anos de relacionamento com o AIPG tem sido totalmente estimulante, além disso, conhecer a criatividade e o trabalho da comunidade e dos alunos que estão vinculados a programas de formação e pesquisa e, por isso, não quero deixar de mencionar que, apesar da dificuldade e do sofrimento que podem ser esses temas, eles são muito importantes, uma das ferramentas mais poderosas em matéria de prevenção de atrocidades que ele reforçou graças ao AIPG é justamente o trabalho em rede para compartilhar e impulsionar iniciativas de proteção aos direitos humanos.